terça-feira, 19 de setembro de 2017

Partida

Sinto o vento soprar. Um aperto no coração feito mãos que se soltam. Eu que sempre acreditei em raízes hoje ando criando asas. Fecho os olhos e ainda vejo lágrimas caindo. O desejo do último abraço das boas lembranças que ficarão guardadas no meu velho baú, onde melodias soarão cada vez menos até que neste relicário só haja silêncio.

Tudo que sei é avistar o céu e buscá-lo. Algo em mim quer que eu permaneça em um jardim do qual não mais sou parte. Se o perfume não combina, se a semente não brota, se não floresce, não dá para permanecer ali, a contemplar a terra seca e desperdiçar adubos. É difícil abandonar jardins que já foram morada e fazer com que se tornem lembranças.

 Talvez voar seja um exercício de autocuidado. Como se o céu preenchesse a vastidão que outrora foi espaço de alguém. Como se a luz azul tocasse lacunas que ainda sangram. E cantar para as nuvens fosse semear no infinito. Como se dançar com o vento fosse dar um adeus ao que está ficando cada vez mais lá embaixo e mais longe, como se o jardim secreto se tornasse por fim um ponto de consciência que se dissolve no mar de lembranças e segredos, numa terra de histórias não contadas.


Se ali já deu flor, e hoje não mais, não faz mais sentido ter raízes, pois poesia se faz com cores e amores respiram fertilidade. O jeito então é acolher o adeus e deixá-lo ir. Como reticências que ecoam para terras distantes, e dão lugar para novas paisagens. E as janelas do coração se abrem para contemplar o céu e nele pintar estrelas. Serão entoadas novas canções e lágrimas virarão chuva. Novos jardins serão regados e outros ciclos virão. Pois partir é se permitir voar. E meu coração é céu. E também flor.