segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Autorretrato

Minha criança,

Porque corres tanto? Olhas para trás e sorri para mim, acenando com olhos brilhantes. Tens uma alma leve e janelas que me conduzem a jardins infinitos. Traz-me paz e preenchimento. Faz meu peito transbordar e faz dos meus olhos um oceano inteiro.

Por que danças tanto?  Quando me aproximo te escondes, e ao mesmo tempo te mostras. Estende a mão e me pões a girar, fazendo com que eu sinta tua música e queira também cantar. Contagia-me com teu ritmo e velocidade, e ao mesmo tempo te assentas à beira do lago, fecha os olhos e, assim, voas ali, sem sair do lugar.

Por que me atrais tanto? Com braços abertos me aguardas para um longo abraço que, quando me entrego, não sei mais se sou tu ou se sou eu. Como se meu coração se limpasse e fosse tão transparente quanto tua áurea que, por fim, preenche todos os meus espaços. Como se a vida só fizesse sentido permeada pela tua doce presença, e a doçura em si fosse parte também de mim.

Por que quando te contemplo te sinto aqui? Como se um universo desabrochasse em mim e cada célula minha fossem estrelas de tua vastidão. E sinto que sou o mar, que sou o todo, o tudo e o nada. O ponto de encontro entre o perto e o longe, o dentro e o fora, a luz e a escuridão. O todo me atravessa e eu atravesso o todo. Como se tudo falasse e a beleza aparecesse, a Poesia nascesse e eu me expandisse.

Por que me atravessas? Me arrebatas de um jeito para um lugar onde o medo se torna lenda. O sublime me toma inteiro e me afoga em tua luz. Faz-me querer ser como tu, até que quando me dou conta sou teu espelho e, ao atravessar minha imagem, sou tu.


E assim corro, danço, atraio, contemplo, atravesso e vôo. Propago-me de tal forma que o único desejo é me dissolver, pois apagar-me, neste caso, é desenhar-te em mim...

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Segredos

Nunca mostres teu jardim a corações intranquilos, a visões turvas ou rostos sombrios. O arco íris foi feito para se encontrar em céus que escondem tesouros. Como pérolas devem ser lançadas em oceanos de segredos.

Fecha teus olhos. Te imaginas deixado em uma nuvem, envolto por uma imensidão negra salpicada de estrelas. Faz de conta que és anjo e brinca de esconde-esconde com a paz do teu coração.

À medida que te aquietas, observa ao longe e escuta a poesia que se embala com o vento. Faz das nuvens teu quarto e deixa elas te acalentarem a alma como o som de uma harpa, que te hipnotiza o espírito e te faz flutuar.

Voa para além da vista de outrem, e dança com teu sono. Faz dele teu melhor amigo para que quando nele te afogues, morrer não seja mais uma dor. Reinventar-se é um morrer bonito. Uma passagem para horizontes misteriosos e reluzentes. Asas tornam-se uma extensão da alma e o coração torna-se rio a jorrar...

Que o mantra entoe
A paz do teu ser
Da existência serena
Da alma que luta
Do olhar que adormece
Que haja dor
E nasça a luz
Dos sábios antigos
Um respirar tranquilo
De onde brota amor...



terça-feira, 19 de setembro de 2017

Partida

Sinto o vento soprar. Um aperto no coração feito mãos que se soltam. Eu que sempre acreditei em raízes hoje ando criando asas. Fecho os olhos e ainda vejo lágrimas caindo. O desejo do último abraço das boas lembranças que ficarão guardadas no meu velho baú, onde melodias soarão cada vez menos até que neste relicário só haja silêncio.

Tudo que sei é avistar o céu e buscá-lo. Algo em mim quer que eu permaneça em um jardim do qual não mais sou parte. Se o perfume não combina, se a semente não brota, se não floresce, não dá para permanecer ali, a contemplar a terra seca e desperdiçar adubos. É difícil abandonar jardins que já foram morada e fazer com que se tornem lembranças.

 Talvez voar seja um exercício de autocuidado. Como se o céu preenchesse a vastidão que outrora foi espaço de alguém. Como se a luz azul tocasse lacunas que ainda sangram. E cantar para as nuvens fosse semear no infinito. Como se dançar com o vento fosse dar um adeus ao que está ficando cada vez mais lá embaixo e mais longe, como se o jardim secreto se tornasse por fim um ponto de consciência que se dissolve no mar de lembranças e segredos, numa terra de histórias não contadas.


Se ali já deu flor, e hoje não mais, não faz mais sentido ter raízes, pois poesia se faz com cores e amores respiram fertilidade. O jeito então é acolher o adeus e deixá-lo ir. Como reticências que ecoam para terras distantes, e dão lugar para novas paisagens. E as janelas do coração se abrem para contemplar o céu e nele pintar estrelas. Serão entoadas novas canções e lágrimas virarão chuva. Novos jardins serão regados e outros ciclos virão. Pois partir é se permitir voar. E meu coração é céu. E também flor.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Adeus

A Deus entrego todas as manhãs. Todos os sorrisos. Os desejos. Os sonhos que se tornaram lembranças. Os planos e as cores. A Deus entrego os versos tatuados. O caminho que percorreríamos de mãos dadas. Os beijos de bom dia. Os melhores abraços e as mãos que seguiam juntos.

A Deus entrego o sabor das imperfeições. As diferenças e desencontros. A Ele entrego as lembranças e o apego. A nostalgia. A imensidão do que sinto. Os suspiros e as canções tristes. As piadas que nós tínhamos. As cócegas e as brincadeiras. As rezas antes de dormir.

A Deus entrego as juras de amor paralelas a inverdades. Os sonhos de uma vida construída a quatro mãos, que terminou em cacos de vidro. A minha ira e toda escuridão. A Ele entrego todas as nossas tempestades e o jardim que insisti em cultivar mesmo quando faltou água e adubo.

A Deus entrego as estrelas. O oceano de lágrimas derramadas. As canções que chorei quando me lembrei de quem gostaria de esquecer. A Deus devolvo o amor que não me cabe mais. A Ele devolvo minhas ilusões. A Deus...

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Névoa

Queria que fosses névoa. Sutil como o pensamento e se esvaísse quando minha alma soprasse. Que o movimento das ondas de mim te enviassem a lugares distantes.

Não sei lidar com tua ausência. Me sinto montanha. Incapaz de mover-me e desvencilhar-me das alturas do coração. É grande demais. Imensurável feito o céu. Infinito de tal forma que me atira ao longe de pensamentos repetitivos que somente eu escuto.

Jogo palavras ao vento. Sempre as mesmas. Teu nome carregado de significados, do quanto eu queria que voltasses, da obsessão pela tua presença que contrasta com o desejo de que vás e não voltes. É uma tempestade que não cessa, um jeito cinza de te amar calado e ao mesmo tempo ensurdecedor.
Queria ter o poder e a magnitude das palavras, que a melodia fosse feito magia e simplesmente agisse. Que estes versos fossem assustadoramente reais:

Que o vento te leve
E te apague feito grãos de areia
Que a brisa te mostre o silêncio
E te faça dormir em mares distantes...
Que a memória me deixe

E ecoes em vácuos quaisquer...

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Anjo

Deita aqui, anjo. Desarma o coração e sincroniza tua respiração com a minha. Deixa eu cuidar das tuas asas quebradas. Vem cá pra gente cuidar desse jardim, onde não existe barreira entre a imensidão de nós dois.

Fecha teus olhos. Voar nem sempre significa estar lá em cima se os pés continuam grudados no chão lamacento dos medos e vícios.


Então confia: teu beijo me despertou o céu. Me enviou estrelas pra eu cuidar e fazer do meu peito um infinito, pois quando te sinto em meus braços e nosso amor se manifesta eu escuto aqui dentro lindas canções sobre o melhor de nós.


Então te abre. Do outro lado, bem aí dentro, existe alguém que insistes esconder de ti mesmo. Que conversa comigo quando me cuidas, quando teu corpo adormece entrelaçado ao meu, quando a noite narra nossos mistérios e nos permitimos transitar entre luz e escuridão, pra nossas almas flutuarem.


Quando elas voam juntas e me lembro enfim das ondas do mar. Das profundezas que permito que o melhor de mim floresça. Como uma rosa branca que se manifesta através de perfumes e espinhos. Quando no coração desabrocham aquelas suaves melodias que dançamos a dois, testemunhados pela lua de prata.


E assim sobrevoamos os céus que almejamos voar com a leveza de um coração liberto. Não é preciso de asas quando se tem amor e este por si só nos torna alados. Quando tudo ao redor se dissolve e só me importa a magia que enxergo em teus olhos.


Então me dá tuas mãos. Anjos não voam sozinhos... 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Travessia

Sentei-me diante do mar. Deixei que meus pensamentos mergulhassem em suas ondas. Fiz-me sol. E me pus ali. Perdido em devaneios que me levavam a tuas lembranças, desenhando um sorriso no canto da boca e amaciando-me o coração. Fechei os olhos pra te ter mais perto, e cada milímetro meu – que um dia foi teu – respirava saudade. Das vidas que atravessei pra te ter nos braços de novo. Das dunas onde o primeiro beijo aconteceu. Das ondas que tocavam nossos pés enquanto caminhávamos em silêncio na praia, onde te entreguei meu coração como a lua que se derramou no céu.

As estrelas testemunharam tudo, anjo. Lá estava o mar, com ondas que vem e que vão, deixando na areia vestígios de um amor viajante. Que percorre a travessia da Roda Vida, esperando ser queimado na fogueira da vastidão, pra que um dia suas cinzas banhadas a ouro se dissolvam no fluxo da Consciência Infinita.


Travessia das águas e do coração. Onde brotam os versos e a Alma se ajeita. A ilha se torna a ponte e o amor se torna canção. O oceano de Graça nos une e a música nasce. Os sonhos se tornam hologramas e a vida nos permite ser somente amor. Pra inspiração nos mover e nos acolher. Pro azul do mar inundar a poesia do olhar. Pro medo se esvair e fazer crescer a força do que há entre mim e ti. Onde sol e lua se encontram. Onde o mar se torna casa e meu ser encontra o teu, numa ponte de infinitas possibilidades. De coração a coração.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ninho

Deixa o coração respirar. Deixa o detalhe vir. Que o olhar abra as portas. Deixa que a palavra aflore e a canção venha perfumando. É que a veia acompanha o tempo, e neste corpo embriagado circula amor.

Regado a desejo, eu sou. Pra inundar o que estiver seco, exalar o que brota dentro. Feito uma flor de lótus. Em mil pétalas desabrocha e desanda a costurar suspiros, trazendo o vento e iluminando meus vazios...

E assim as coisas se ajeitam, caminhando em direção a você, destino para onde meus pensamentos vão. Me faz sair de onde estou na velocidade de um fechar de olhos... Vou com o vento, buscando suas memórias, desejando estar mais perto, tecendo hologramas do seu abraço.

É que eu te quero, amor. Sem a bênção dos seus abraços, meu peito aberto perde o sentido. Não tem por que valsar o verso. Não há razão pra dançar você... É que eu insisto, me entrego e me dou. Então vem logo e me abraça. Chega logo e se ajeita. Nosso ninho a gente faz em qualquer lugar... Porque o "abismo" entre nós é somente amor...


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Enlace

"Por amor, por Deus
prenda-se a mim" (Luis Kiari)


Conheci cada traço do seu corpo. Ainda assim, toda vez que me deito em seu leito te redescubro no frescor da primeira vez. A nuance da temperatura, o desenho das suas costelas e suas têmporas se acostando em mim. Encontro sua cintura e encaixo minhas pernas às suas. Me ajusto a você. Toco as estrelas sem abrir os olhos, e te amo mais uma vez. Ouço sua voz, sentindo o pulsar do sangue. Respiro o ar contaminado pelo seu cheiro. Me abandono pra te ver avançar. Como se o céu nos conduzisse, o mar nos inspirasse e evocasse suas canções. Seus anseios e sussurros. Pausas e silêncios:

Lá
onde as melodias nascem
em cuja relva me deito
e me permito

Lá
onde as estrelas recostam
as lágrimas perfumam
e te recebo

Lá
onde viver é repousar
no brilho do calor
e te abraço

Lá
onde a vida eterniza o beijo
amar é imensidão
e t'enlaço.

Cura


Ela cai pra limpar. Clamei que viesse pra me lavar a alma. Que me tirasse todas as tatuagens que me pintaram. Que me apagasse as cicatrizes que me desenharam. Que me privasse do suor que me causou desconforto. Que me esvaísse o calor do corpo e dos pensamentos que me habitam durante o dia e se transformam em pesadelos à noite.

Pode ser que eu tenha gostado. Mas quando se ingere algo em excesso, torna-se veneno. Corre pelo sangue e nos afeta as células. Os hormônios borbulham diferente; a aura muda de cor. O céu se transforma, se encharcando de um nublado diferente, em que a dor se esconde, camuflando em meio aos afetos, enquanto o corpo se transforma e tudo que fica é uma possessão de um estado além que jamais conseguirei explicar.

Por isso o céu é minha solução. Essa água que me unge e espanta todos os agouros, tirando-me as sombras. Como se fechar os olhos e respirar fundo enquanto paro o tempo fosse a cura pros meus anseios, e daí começasse uma melodia calma que me afagasse o coração. Um mantra. A necessidade oculta gritando a própria sede. Meu coração áspero feito a terra seca e meus harmônicos desejando voltar. Minha intuição me dizendo sobre a hora de romper com o vício... Quebrar todos os espelhos que me ocultaram as janelas da parede. Pra que um dia eu os estilhaçasse e fizesse do horizonte um tesouro sagrado.

Somente ali vou me purificar de todas as insônias e alucinações. Do que câncer que você se tornou. Pra minha cura acontecer e eu conseguir ir, sem que sua presença me habite os devaneios, já que não faz sentido eu me alimentar um passado que já se foi.

Talvez essa chuva me seja Graça. E cada gota me quebra um retrato seu. Um desejo meu. Pra que as palavras se destinem pra um outro alguém e sejam frutos de um novo pulsar. Pulsar de veia. Razão pela qual sinto sede e almejo voar. E (te) amar...

segunda-feira, 4 de março de 2013

Ouro


Não sei onde vai dar. Mas sigo. Algo me diz que devo continuar trilhando, ainda que o futuro permaneça no escuro...

A luz vem de lá. E o desconhecido que habita em mim me persuade a não desistir. Por isso me brota o desejo do adiante. A inspiração que me move as pernas e me foca o olhar. Direcionando-me ao horizonte de onde brota a luz, e pra onde meu coração me sugere direcionar o amor.

Eu te dou o ouro do meu amor. E tudo que há de bom que foi semeado outrora. Nesta vastidão da vida, nessa confusão do agora, só me resta amar. O mar. A certeza de que um dia chegarei ao fundo e encontrarei o tesouro que me é herança.

Fecho os olhos pra enxergar. A canção que habita em mim e que me sugere o vento. De onde o sol nasce e me traz a luz imanente. A energia das manhãs e das noites, que me banham a alma.

Preciso abrir os poros pra me libertar. Permitir que o renovo me venha e irradie sua luz sobre mim. Pra alma voar e, alada, semear no céu. Porque tudo é amor. E desta verdade sou fruto. Filho. Tudo é amor. Eu sou amor... 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Lótus


Não sei onde nem quando. Só sei que sim e que é. Como borboleta que me agita o estômago e me traz asas de terras que nem sei. Conduz-me a instâncias de que a razão duvida, já que o céu é um infinito inundado por mistérios. Lugar de onde incertezas que meu corpo insiste em visitar, como se voar fosse fechar os olhos e se permitir fugir para pensamentos ocultados até mesmo dos abismos do universo.

Vou pra lá todos os dias e me permito. No vazio entre a luz e as trevas. Como flor de lótus. Um beijo furta-cor. Onde minha mente se expande em lugares mais recônditos de mim e me descubro em camadas. Algo a ser saboreado por cada curva da minha alma, lugar em que entôo mantras infindáveis e evoco minhas loucuras. Pra onde me escorro e deixo a poesia vir me visitar, feito uma alma velha que me toca o ombro direito e me causa calafrios, pra eu enfim me libertar.

A alma dança liberta. Dança o vento dos meus devaneios pra que o perfume venha. A lótus desabrocha e as pétalas se tornam mar. No topo da minha cabeça, me atiçando o espírito, enquanto eu, envolto dessa luz branca, torno-me alado e te penso inteiro. Te hologramo sem medo e o fogo se expande. E sem caber em mim mesmo, perambulo sem lugar diante do cais... Com as asas imersas, até explodir em poder pra enfim voar. Não há mais limites neste lugar... É tudo sublime demais...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Holograma


Sempre te guardei no bolso. Enfrentei sóis e luas e te mantive ali, meu mais lindo segredo. Minha lembrança mais singela. A única cujos detalhes guardei todos, e fiz deles um autorretrato, ressaltando meus sonhos e projeções ao teu lado.

Sabes, amor? Depois de todos esses anos sem te saber notícias, sem te ouvir a voz, lembrei-me de todos os teus aniversários, te sonhei em algumas manhãs e saboreei tuas memórias em luas de prata. Saboreei os beijos que almejamos, mas não trocamos; as noites que nos prometemos e não tivemos; as juras de amor trocadas em segredo, e até então não cumpridas. Sempre com a certeza de que te encontraria de novo, com a esperança de te sentir o cheiro e te mostrar o mar. Sentar ao teu lado na areia e ver todos os por de sóis diante de nós. Te amar mais uma vez em um pra sempre nosso.

Pedi ao universo que nos tornássemos eternos e as estrelas nos dessem sua bênção. Sussurei-te em telepatia: “Me faz ser-te um mar que te faço um céu. Deita na areia e deixa que o embalo das águas te acalente as tristezas. Dorme enquanto te guardo, pois a luz virá abrir-te os olhos.Escuta o acalanto do vento que te dirá sobre meu amuleto...”

Ouviste, vida? Porque de todos os anjos que te visitaram a beira-mar, de todas as ondas que te umedeceram a face, lá estava eu te sereiando em pensamentos. Te sereiágua sempre. Enquanto tiver vida pra te sonhar. Sonhar teu abraço e todos os beijos que nos roubaram esses oitos anos, e fizeram de ti meu mais lindo holograma. O sonho que guardei em segredo e cultivei nas águas, em profundezas que somente teu coração visitou. Águas cujas ondas me remeteram a ti, me tiraram o sono e me ensinaram amar, selando em versos o beijo que guardei pra te entregar...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Flor

Vem cá, meu dengo. Deita aqui que o colo é teu. Deixa que a chuva te lave a alma e cuide do teu jardim. Sei bem do vendaval que te afetou as flores. É que as intempéries fazem parte. Porque a vida instintivamente nos dá nuances, pra que as árvores que brotarem no coração cresçam fortes, a ponto de vergarem, mas jamais caírem. Porque elas nasceram pra atravessar o céu e tocarem as estrelas... Pra que juntos possamos subir em seus troncos e colher sementes de lua.

Vem sem medo, minha flor, que te dou a mão enquanto caminharmos no escuro. Te levarei à beira-mar se o medo te invadir. Sabes que sou teu anjo e me és asa, então vem voar que o céu tem muito a nos dizer. É no seu horizonte mais belo onde encontraremos o antídoto pra todos os encantos que nos lançaram e nos tiraram a calma. É exatamente lá onde os nossos segredos se tornarão azuis, e os nós se tornarão jorros de luz, porque o tempo das amarras já se foi.

Não te esqueças do por que nascemos. Da razão pela qual devemos seguir o curso. Não te doas pelos espinhos de outrem que não te ajudou a adubar a terra. Não te permitas machucar-te por quem se negou conhecer teu perfume quando quiseste anunciar tua madre pérola. Deixa que tuas pétalas floresçam em um dia de sol regado por uma chuva leve no fim da tarde, quando os pássaros visitarem o céu e a noite te cobrir com uma canção de ninar, pra que te aquietes a alma.

Não mostres o melhor de ti para quem te ofereces terra seca e estéril. Faz da tua vida um diamante secreto, e deixa ele brilhar quando alguém te oferecer versos pela janela. Algo que rime com o teu melhor, com tua alma colibri. Com teu jeito de menina que faz brotar o sorriso alheio. Com tua alegria que me faz te querer por perto. Porque me perfumas o dia, e minh’alma flutua ao teu lado. Perto de ti as tristezas se vão, e me sinto perto do mar. Então me dá teu abraço, porque colado em ti eu nunca estarei na pior. Não deixarei que te aproximes de abismos. Nunca estaremos sós. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Canção Azul


Te entrego esta canção. A melodia que despertou em mim. O sentimento vibrando em meu corpo, feito mantra. As emoções se aflorando, a respiração transmutada, o êxtase do sentimento.

Quero isso a vida inteira. Pra me sentir vivo e amanhecer a cada instante. Pra ter motivos novos pra escrever, e me debruçar perante o mar. Descobrir novos azuis e entender o dialeto dos céus.

Se assim me sinto, torno-me anjo. Alado feito as estrelas, braço dado com o vento, flutuando num infinito qualquer.

 É singelo assim. De um jeito que mexe. Que me deixa reticente e me faz olhar pro nada. Me perder em pensamentos, pra me achegar à sua lembrança. Suave, singelo, sutil... Feito ondas do mar...

domingo, 16 de dezembro de 2012

Beija Flor


Ah, menino... Me apaixonei por suas palavras. Desejei baixinho que fossem todas elas pra mim. Era tudo tão escolhido a dedo que me seduziu à primeira leitura.

Nem todo mundo tem os olhos seus. Olhos de quem esquadrinha o mundo e retira poesia de detalhes que ninguém vê. Como se não fizesse esforço e a beleza simplesmente viesse te ver.

Menino, que lindeza esse seu jeito poeta! Seu charme. Sua carta na manga. Seu ponto forte pra encantar os outros. Chega a parecer que é tática. Perfume propositalmente usado pra que os amores venham e desabrochem de frente à sua janela. Pra que você possa se envaidecer e retirar das pétalas a essência dos versos.

E cá vou eu, beija flor, pelas beiradas, prestando atenção nos seus detalhes, desfrutando do seu jardim pra que um dia possa ser poeta como você.

Poeta das águas. Poeta do mar. Ilhado em pensamentos, ancorado em devaneios. Quero me aproximar desse céu que é tão seu e, de um jeito singelo, respirar seus frescores e ser um tantinho mais eu.

É, menino, se você soubesse que anda despertando amores com esses versos, faria um estrago! Enquanto isso te é segredo, fico aqui calado, esperando a brecha pra te olhar nos olhos, te contemplar inteiro, encontrando face a face essa poesia que alimenta a minha. Enquanto te leio, te respiro, te floreio. Espero um beijo, pra me impregnar do perfume seu...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sereiágua


Meu valor está nas estrelas. Guardei lá. Sempre gostei de andarilhar voando, pra enxergar lá do alto as profundezas de cá. Pra entender. E mergulhar.

Não que eu esteja acima. Nem por cima. É tudo pretexto pra ir fundo e ver cada coisa como se fosse a primeira vez. Retirar o extrato pra poesia brotar. Pro mar fluir...

Meu coração é simples. Frágil. Por isso o cuidado, o tato, o verso. Pra perfumar e maquiar, pra não ficar tão nu e cru. Porque não quero que vejam demais.

Por isso te peço, amor: não me julgues. Não fala do que desconheces, do que não te cabe. Tenho minhas belezas secretas que ando guardando pra um outro alguém...

Fala pianinho, beibe. Não atrapalhes minhas canções. Eu só preciso amar. Se não sabes nadar, não me impeças. Apenas respeita. Não te debatas, não lutes. Deixa o mar ir e vir. Respeita o tempo dele, as coisas que ele diz, a maré que ele propõe.

É o mínimo que podemos dedicar a ele. Então se já não dá, fica na areia. Caminha à tua maneira e respira do teu jeito, sem que nos ajustemos um ao outro...

Preciso sereiar. Sereiágua. Sempre. Refletindo a poesia que guardo nas estrelas. Meu valor e minha dignidade. Minha poesia. Ainda que nada seja de fato meu... Mas por algo que habita em mim. Que me faz amar. Por isso apenas (me) respeita. E vai...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sobre nós


Ele: O que há de melhor em mim é sua lembrança. Amuleto que guardo comigo, mostrando a cada horizonte a beleza do nosso amanhecer. Como se quisesse te unir ao sol pra te contemplar a cada aurora que se manifestasse diante de mim. Pra que o amor se eternize, e lá permaneça, guiando-me a cada norte que a intuição propuser, pra que eu siga andarilhando sendo guiado pelo seu perfume. Porque não te resisto, amor, e cada magnitude sua é um renascer pra mim. Mas já é noite, e só me restam as estrelas.

Ela: Bem eu sei o que me dizes. Sobre as belezas que cultivamos. Sobre os segredos enterrados. Sei também sobre as lágrimas que se tornaram mar. E nos ilharam. Pra que cada um entendesse a efemeridade da poesia, a dimensão do amor. (Pausa, como se ela refletisse...) Eu te amo. Mas não te quero mais. Enquanto me almejas o sol, quero-te a lua. Quero-te eclipse.


Ele: Pra gente se fundir?


Ela: Pra te olhar uma última vez...


Ele: E por que o fim?


Ela: Porque quero o começo.

...................................................................................................................................................................


PS: Talvez prólogo. Talvez canção...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Estrada


É que assim... as melodias correm tristes. Os quilômetros do quanto te queria aqui me afetam as batidas do peito. Eu, andarilho, levantando vôo pra conhecer outros céus. Você com sua vida passaredo fazendo suas coisas, levantando seus tijolos, dizendo que pensa em mim. Eu reagindo, dizendo que também, que to bem, mas no fundo sabendo que ainda existe um mundo a se descobrir (com ou sem você?).

(...)

Eu quero a vida borbulhando. Se tivesse você ao lado, a vida seria perfeita! Mas nas atuais circunstâncias o que me restam são suas lembranças, o amor que cultivo, regado pelo desejo imenso de te ter de novo. Te quero mais do que almejei o mar. Mas hoje me peguei triste, reticente. Poetizando minhas entrelinhas, disperso entre as estrelas. Meu coração cinzento, o pensamento distante e nossa canção tocando de longe. Eu te querendo, sem saber ao certo se é tempo de te querer.

Te vejo longe, me és recordação, mas me é também realidade. És em mim. Bem sei o quanto te quero. O quanto quero te falar sobre meu amor. Te recitar um poema inteiro com os olhos, pra que me conheças as janelas. Pra que me desvendes até onde nem eu sei. Pra me entregar ao seu abraço e simplesmente me esquecer de mim mesmo.

Mas o que vejo, amor meu, é somente estrada. E te queria ao meu lado, sua mão colada à minha, pra juntos desenharmos pegadas na areia. E enfim mergulhar. E enfim ir...

Tão doce é meu amor por você. Por isso fecho os olhos, e respiro. Espero. Mentalizo: que essa saudade que me colore o peito agora seja a poesia de uma finitude da distância. Porque o resto somos nós e a imensidão. Nosso amor e nós dois... Nós dois e o mar...

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sentido


Senti o amor nascer. Veio assim, sutil, como o sol que nasce e me lacrimeja os olhos. Vi o amor nascer quando nos beijamos em segredo e as ondas desenhavam nossa paixão na areia.

Vi o amor nascer quando a noite nos cobriu. Quando você me olhou nos olhos e se arrepiou inteiro. Quando meu quadril encostou-se ao seu e nosso corpo pedia mais. O vento soprava nossos intentos e a maré nos acolhia.

Ouvi o amor nascer quando seu lábio me cantou um beijo. E pude te ouvir por inteiro, desejando que aquela melodia fosse eterna, junto ao calor do seu abraço.

Tateei o amor e te saboreei inteiro. Degustei sua pele, bebi seu coração. Te jorrei lágrimas, te deliciei inteiro, enquanto a alma voava. As asas livres e as estrelas testemunhando...